quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Para meu fi: Mara, que partiu para enfeitar o jardim do Pai


Há muito tempo eu li que quando vamos a um jardim colher uma flor sempre escolhemos a mais bonita. O Pai faz o mesmo. Quando ele quer enfeitar o jardim do Céu, sempre prefere as mais belas flores. Agora, Ele escolheu você, MARA. Mas antes nos concedeu o privilégio de lhe conhecer e conviver com você por quase 40 anos.
“Meu fi” era a forma carinhosa como você chamava todo mundo. Comigo era “meu fi” ou “Iarinha”. Você tornou minha vida mais feliz e cuidou de mim com carinho e zelo de mãe. Seu jeito simples e delicado tocava a todos. Você era a mãe Mara de todos, até das pessoas de fora. 
Recordar alguns dos momentos com você alivia o coração. Uma das lembranças que guardo com afeição é de quando eu era criança e fiz a cirurgia para tirar as amídalas. Quando voltei do hospital, você me abraçou chorando e disse: "meu fi, você não morreu".
Lembrar das comidas de você fazia, me deixa com água na boca. Ninguém faz uma galinha guisada mais gostosa que a sua; mocotó você só cozinhava quando eu estava em casa e guardava a unha para mim. Comida de milho então, ninguém ganha de você. Na véspera de São João, quando eu chegava do trabalho, você tirava do esconderijo a panela onde fizera a canjica. Você deixava um pouco a mais no fogo para grudar no fundo, pois sabia que era a minha parte preferida. Era um monte de caras feias das meninas que queriam raspar o queimado, mas você dizia "a panela é de Iarinha". 
Você me viu crescer e esteve presente em todos os momentos importantes da minha vida. Quando me tornei mãe, você amou meus filhos como seus e deu a eles tanto amor e carinho quanto deu a mim. 
Sua fé era inabalável e seu coração puro lhe dava uma linha direta com o Pai. Quantas vezes, falei para você: reze por mim. Você sempre respondia "vou fazer uma promessa, meu fi". A graça era certa. 
Mara, ter tido a oportunidade de cuidar de você e tentar suavizar seu sofrimento nesses meses, me fez retribuir, talvez ou ainda menos, uma milionésima parte de tudo o que você fez por mim. Um dia quando íamos ao hospital, você me falou "meu fi, se eu tivesse dinheiro, ia pagar muito para você ficar sempre comigo e cuidar de mim." Eu respondi que nem uma quantia pagaria meu trabalho, o que fazia por você era por amor. 
Meu fi, quero lhe agradecer por tudo. Sei que agora você está nos braços do Pai. Saiba que você tocou a todos que lhe conheceram e os tornou pessoas melhores. Muito obrigada por ter por ter feito parte da minha vida. Você estará sempre no meu coração.



Sua Iarinha

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Por que um blog?


Por que fazer um blog? Eu me fiz esta pergunta quando decidi criar um.
Desde criança eu sonho em me tornar escritora.  Olhar uma folha em branco me faz pensar em preenchê-la com palavras cativantes. As palavras sempre me fascinaram. 
Amo todo estilo de texto, mas dentre eles a crônica me encanta. Fico perplexa como Rubem Braga (meu preferido), Fernando Sabino, Carlos Drummond, Rachel de Queiroz conseguiam pegar temas tão corriqueiros e...
Não precisa esfregar na minha cara que a crônica é feita de fatos cotidianos. Eu sei! Mas eles tomavam fatos sem importância e transformavam em uma obra de arte.
Neste momento, o ar ao meu redor tem um cheiro de admiração, reverência, assombro e, é claro, uma pitada de cobiça. (Não, não é inveja. Inveja é querer que o outro não tenha. Cobiça é querer o que o outro tem.) Lógico que eu queria ter o talento deles. Já imaginou?! Eu já. Milhares de vezes.
Alguém pode pensar e até perguntar: se você quer escrever, por que não escrever um logo um romance? Acho que tem haver com a minha personalidade e estilo de vida, eu sou agoniada demais para um romance.
Adoro ler, e romances estão no topo da lista. Mas para escrever gosto de olhar as minúcias do dia, fazer recortes de momentos, perceber de forma diferente o costumeiro.
As coisas ordinárias e efêmeras têm um sabor de infância, de beijo de menta, de cheiro de grama cortada, de chuva, de brigadeiro de colher com pipoca... 
Fazer um blog é uma forma de extravasar a minha vontade de escrever, uma coisa que está latente desde antes da Faculdade. Também é uma forma de exercitar o cérebro, de criar novas sinapses. 
Peço paciência a quem se aventurar por estas páginas, tenho interesses diversos e nem sempre os assuntos terão uma continuidade cronológica ou lógica, porém seguirão o impulso do meu coração.  Não será feito só de crônicas, mas de tudo que a inspiração, a imaginação e a paixão (haja ãos) desejarem.

Cheiros,

Iara Oliveira

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Se eu fosse cronista...




Se eu fosse cronista, olharia a vida como só os que escrevem crônicas sabem fazê-lo, tirando do mais banal dos acontecimentos todo lirismo que há na poesia. 
Perpetuaria cada momento vivido, por mais aparentemente insignificante, para lhe mostrar fielmente o que você não viu.
Procuraria as palavras exatas, dosando-as com precisão para que nenhuma faltasse e tampouco sobrasse no espaço tão curto de uma crônica.
Se eu fosse cronista, faria um texto leve que lhe empolgasse e lhe despertasse o desejo de ir até o fim para descobrir o desfecho fascinante que fui capaz de encontrar para algo que seria desprezível se não tivesse sido olhado com cuidado e captado pelo talento de um cronista.
Eu lhe surpreenderia, fazendo-lhe perceber que até as gotas do chuveiro têm grande importância nas mãos de um cronista. Eu lhe encantaria, mostrando a graça da viagem de volta, às seis horas da tarde, em um dos trens lotados da Central; far-lhe-ia reparar que os corpos cansados se movem no ritmo da locomotiva com a leveza de um Baryshnikov, e que o assalto em um dos vagões tem o gosto de uma aventura de Spielberg.
Se eu tivesse o talento dos cronistas, lhe faria notar a beleza da mendiga desdentada, que encostada no seu carro, lhe pede um trocado para tomar um café, e lhe mostraria que a corrida do moleque que lhe rouba a carteira tem a graça de uma prova das Olimpíadas.
Eu lhe ensinaria a olhar as favelas com os olhos de uma criança inocente a qual pensa que as pessoas moram nos morros para ficar mais perto de Deus.
Se eu tivesse a sensibilidade peculiar dos cronistas, recolheria todas as dores e alegrias humanas e as recontaria, lhe fazendo descobrir a todo instante a essência da vida e a grandeza dos mais simples.
Seria capaz de lhe encantar, através do meu texto, com o cachorro sarnento que não lhe deixa dormir e lhe faria escutar a sinfonia da torneira da pia que não para de pingar.
Eu faria de cada folha um palco, onde estreariam todos os dias, como protagonistas, os atores marginais da vida. Poderia lhe seduzir, ao transformar em estrela, a menina pobre do subúrbio que, resgatada do seu anonimato, brilharia por um instante em uma crônica minha.
Se eu tivesse a alma dos cronistas, sentaria ao computador e só de olhar o teclado escreveria uma crônica que lhe despertaria para o sorriso do menor de rua, que na sua pureza lembra o Menino Jesus.
Se eu fosse cronista, lhe emprestaria meus olhos para que você enxergasse a vida com a magia que os cronistas veem, e eu tornaria eternas até mesmo as coisas efêmeras.
Eu faria tudo isso, se eu fosse cronista e soubesse tirar dos segundos um século, um mundo e com ele lhe deslumbrar.

Ah! Se eu fosse cronista... 


Iara Oliveira

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Foquemos no essencial

Ao me dar conta da finitude da vida e perceber que já passei da metade da minha. Tenho menos tempo a viver do que os anos que já vivi. Não é uma constatação fácil, mas não fiquei deprimida nem apreensiva. Decidi me preparar para envelhecer e comecei pelos cabelos que resolvi deixar naturais, prateados.
Tenho cabelos brancos desde os dezoito anos e teria que pintar a cada quinze dias. Eu não fazia isso por dois motivos: preguiça e falta de tempo. Para “melar”, os cabelos em casa eram quase duas horas. No salão, o tempo dobrava. Aplica a tinta, espera o tempo de ação, enxágua, hidrata.
 Ufa, cansei. Criei coragem e me assumi grisalha. Críticas construtivas e destrutivas choveram. Não me importei. Sempre fui um pouco rebelde. Até quando me importava com a opinião dos outros ou ficava chateada, sempre experimentava o que eu gostava. Quanto aos cabelos, sempre poderia voltar atrás. No entanto, confesso que estou amando meus grisalhos. Apesar de ainda escutar "cabelo branco envelhece", "parece relaxada", "pinta esse cabelo" " você ainda é jovem, bonita, se pintar o cabelo".  Eu sorrio e, às vezes, dependendo do meu humor, respondo. Têm muitos elogios também, já perguntaram a cor e até pediram para tirar foto para mostrar à cabeleireira.
Depois dos cabelos, resolvi cuidar da minha saúde, me preparar para ser uma velhinha saudável e sirigaita. Foi nessa busca que conheci, descobri, achei o minimalismo. Não gosto de bagunça e sempre tente organizar as coisas, sou uma flybaby, mas o declutter ou destralhe sempre foi um desafio. O choque foi grande. Apesar de não ser gastadeira, tenho coisas demais. Não chego ao ponto dos acumuladores, mas tenho meus apegos.
Sempre doei, sem muitos dramas, roupas, livros, sapatos. Ainda assim tenho muitas coisas e sempre fica a sensação será que eu vou precisar. E se... Assim as coisas vão se acumulando. Li os dois livros de Mari Kondo e assisti a série da Netflix. Extremo demais para mim! Até imaginei jogando as roupas todas em um cômodo e Job (meu pinscher) dormindo e fazendo xixi em cima. Tenho umas roupas antigas, umas que só uso uma, duas vezes no ano. Mas são coisas que gosto e não pretendo me desfazer delas.
Meu maior problema são os pontos quentes ou hot spots como a Flylady chama. Lá em casa qualquer superfície horizontal atrai as coisas. Os papéis sofrem de reprodução espontânea. Entretanto tudo isso é "fácil" descartar. Aí chegamos a eles, os livros. Mesmo doando vários ainda temos muitos e amamos e compramos mais. Já viu, né?
Para mim, a importância de se reduzir as coisas é para valorizarmos e aproveitarmos o que temos, sejam roupas, livros, potes (rsrsrs). Ter consciência do que realmente é relevante para nós e não seguir uma cartilha ou modismo. Estar com quem amamos, valorizar os bons momentos, ajudar os outros e celebrar a vida é o que importa e nos faz mais humanos. O resto é resto.
O tempo é breve. Os dias são rápidos. Gastamos e perdemos tempo com o que não tem valor. Como nos consumimos pelo que é efêmero. Quanta importância damos para o transitório.  

Isso me faz pensar que precisamos focar no essencial. O que é fundamental para cada um? O que é imprescindível para mim pode não ser para o outro. Mas as pessoas são o mais importante. Precisamos valorizar os nossos queridos enquanto os temos na nossa vida. Vamos abraçar, beijar e falar o quanto eles são preciosos para nós, pois somos momentâneos e podemos não ter a chance de falar o que é preciso.



           Iara Oliveira