quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Por que um blog?


Por que fazer um blog? Eu me fiz esta pergunta quando decidi criar um.
Desde criança eu sonho em me tornar escritora.  Olhar uma folha em branco me faz pensar em preenchê-la com palavras cativantes. As palavras sempre me fascinaram. 
Amo todo estilo de texto, mas dentre eles a crônica me encanta. Fico perplexa como Rubem Braga (meu preferido), Fernando Sabino, Carlos Drummond, Rachel de Queiroz conseguiam pegar temas tão corriqueiros e...
Não precisa esfregar na minha cara que a crônica é feita de fatos cotidianos. Eu sei! Mas eles tomavam fatos sem importância e transformavam em uma obra de arte.
Neste momento, o ar ao meu redor tem um cheiro de admiração, reverência, assombro e, é claro, uma pitada de cobiça. (Não, não é inveja. Inveja é querer que o outro não tenha. Cobiça é querer o que o outro tem.) Lógico que eu queria ter o talento deles. Já imaginou?! Eu já. Milhares de vezes.
Alguém pode pensar e até perguntar: se você quer escrever, por que não escrever um logo um romance? Acho que tem haver com a minha personalidade e estilo de vida, eu sou agoniada demais para um romance.
Adoro ler, e romances estão no topo da lista. Mas para escrever gosto de olhar as minúcias do dia, fazer recortes de momentos, perceber de forma diferente o costumeiro.
As coisas ordinárias e efêmeras têm um sabor de infância, de beijo de menta, de cheiro de grama cortada, de chuva, de brigadeiro de colher com pipoca... 
Fazer um blog é uma forma de extravasar a minha vontade de escrever, uma coisa que está latente desde antes da Faculdade. Também é uma forma de exercitar o cérebro, de criar novas sinapses. 
Peço paciência a quem se aventurar por estas páginas, tenho interesses diversos e nem sempre os assuntos terão uma continuidade cronológica ou lógica, porém seguirão o impulso do meu coração.  Não será feito só de crônicas, mas de tudo que a inspiração, a imaginação e a paixão (haja ãos) desejarem.

Cheiros,

Iara Oliveira

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Se eu fosse cronista...




Se eu fosse cronista, olharia a vida como só os que escrevem crônicas sabem fazê-lo, tirando do mais banal dos acontecimentos todo lirismo que há na poesia. 
Perpetuaria cada momento vivido, por mais aparentemente insignificante, para lhe mostrar fielmente o que você não viu.
Procuraria as palavras exatas, dosando-as com precisão para que nenhuma faltasse e tampouco sobrasse no espaço tão curto de uma crônica.
Se eu fosse cronista, faria um texto leve que lhe empolgasse e lhe despertasse o desejo de ir até o fim para descobrir o desfecho fascinante que fui capaz de encontrar para algo que seria desprezível se não tivesse sido olhado com cuidado e captado pelo talento de um cronista.
Eu lhe surpreenderia, fazendo-lhe perceber que até as gotas do chuveiro têm grande importância nas mãos de um cronista. Eu lhe encantaria, mostrando a graça da viagem de volta, às seis horas da tarde, em um dos trens lotados da Central; far-lhe-ia reparar que os corpos cansados se movem no ritmo da locomotiva com a leveza de um Baryshnikov, e que o assalto em um dos vagões tem o gosto de uma aventura de Spielberg.
Se eu tivesse o talento dos cronistas, lhe faria notar a beleza da mendiga desdentada, que encostada no seu carro, lhe pede um trocado para tomar um café, e lhe mostraria que a corrida do moleque que lhe rouba a carteira tem a graça de uma prova das Olimpíadas.
Eu lhe ensinaria a olhar as favelas com os olhos de uma criança inocente a qual pensa que as pessoas moram nos morros para ficar mais perto de Deus.
Se eu tivesse a sensibilidade peculiar dos cronistas, recolheria todas as dores e alegrias humanas e as recontaria, lhe fazendo descobrir a todo instante a essência da vida e a grandeza dos mais simples.
Seria capaz de lhe encantar, através do meu texto, com o cachorro sarnento que não lhe deixa dormir e lhe faria escutar a sinfonia da torneira da pia que não para de pingar.
Eu faria de cada folha um palco, onde estreariam todos os dias, como protagonistas, os atores marginais da vida. Poderia lhe seduzir, ao transformar em estrela, a menina pobre do subúrbio que, resgatada do seu anonimato, brilharia por um instante em uma crônica minha.
Se eu tivesse a alma dos cronistas, sentaria ao computador e só de olhar o teclado escreveria uma crônica que lhe despertaria para o sorriso do menor de rua, que na sua pureza lembra o Menino Jesus.
Se eu fosse cronista, lhe emprestaria meus olhos para que você enxergasse a vida com a magia que os cronistas veem, e eu tornaria eternas até mesmo as coisas efêmeras.
Eu faria tudo isso, se eu fosse cronista e soubesse tirar dos segundos um século, um mundo e com ele lhe deslumbrar.

Ah! Se eu fosse cronista... 


Iara Oliveira