quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Se eu fosse cronista...




Se eu fosse cronista, olharia a vida como só os que escrevem crônicas sabem fazê-lo, tirando do mais banal dos acontecimentos todo lirismo que há na poesia. 
Perpetuaria cada momento vivido, por mais aparentemente insignificante, para lhe mostrar fielmente o que você não viu.
Procuraria as palavras exatas, dosando-as com precisão para que nenhuma faltasse e tampouco sobrasse no espaço tão curto de uma crônica.
Se eu fosse cronista, faria um texto leve que lhe empolgasse e lhe despertasse o desejo de ir até o fim para descobrir o desfecho fascinante que fui capaz de encontrar para algo que seria desprezível se não tivesse sido olhado com cuidado e captado pelo talento de um cronista.
Eu lhe surpreenderia, fazendo-lhe perceber que até as gotas do chuveiro têm grande importância nas mãos de um cronista. Eu lhe encantaria, mostrando a graça da viagem de volta, às seis horas da tarde, em um dos trens lotados da Central; far-lhe-ia reparar que os corpos cansados se movem no ritmo da locomotiva com a leveza de um Baryshnikov, e que o assalto em um dos vagões tem o gosto de uma aventura de Spielberg.
Se eu tivesse o talento dos cronistas, lhe faria notar a beleza da mendiga desdentada, que encostada no seu carro, lhe pede um trocado para tomar um café, e lhe mostraria que a corrida do moleque que lhe rouba a carteira tem a graça de uma prova das Olimpíadas.
Eu lhe ensinaria a olhar as favelas com os olhos de uma criança inocente a qual pensa que as pessoas moram nos morros para ficar mais perto de Deus.
Se eu tivesse a sensibilidade peculiar dos cronistas, recolheria todas as dores e alegrias humanas e as recontaria, lhe fazendo descobrir a todo instante a essência da vida e a grandeza dos mais simples.
Seria capaz de lhe encantar, através do meu texto, com o cachorro sarnento que não lhe deixa dormir e lhe faria escutar a sinfonia da torneira da pia que não para de pingar.
Eu faria de cada folha um palco, onde estreariam todos os dias, como protagonistas, os atores marginais da vida. Poderia lhe seduzir, ao transformar em estrela, a menina pobre do subúrbio que, resgatada do seu anonimato, brilharia por um instante em uma crônica minha.
Se eu tivesse a alma dos cronistas, sentaria ao computador e só de olhar o teclado escreveria uma crônica que lhe despertaria para o sorriso do menor de rua, que na sua pureza lembra o Menino Jesus.
Se eu fosse cronista, lhe emprestaria meus olhos para que você enxergasse a vida com a magia que os cronistas veem, e eu tornaria eternas até mesmo as coisas efêmeras.
Eu faria tudo isso, se eu fosse cronista e soubesse tirar dos segundos um século, um mundo e com ele lhe deslumbrar.

Ah! Se eu fosse cronista... 


Iara Oliveira

Nenhum comentário:

Postar um comentário