Se eu fosse cronista, olharia a vida como só os que
escrevem crônicas sabem fazê-lo, tirando do mais banal dos acontecimentos todo
lirismo que há na poesia.
Perpetuaria cada momento vivido, por mais
aparentemente insignificante, para lhe mostrar fielmente o que você não viu.
Procuraria as palavras exatas, dosando-as com
precisão para que nenhuma faltasse e tampouco sobrasse no espaço tão curto de
uma crônica.
Se eu fosse cronista, faria um texto leve que lhe
empolgasse e lhe despertasse o desejo de ir até o fim para descobrir o desfecho
fascinante que fui capaz de encontrar para algo que seria desprezível se não
tivesse sido olhado com cuidado e captado pelo talento de um cronista.
Eu lhe surpreenderia, fazendo-lhe perceber que até
as gotas do chuveiro têm grande importância nas mãos de um cronista. Eu lhe
encantaria, mostrando a graça da viagem de volta, às seis horas da tarde, em um
dos trens lotados da Central; far-lhe-ia reparar que os corpos cansados se
movem no ritmo da locomotiva com a leveza de um Baryshnikov, e que o assalto em
um dos vagões tem o gosto de uma aventura de Spielberg.
Se eu tivesse o talento dos cronistas, lhe faria
notar a beleza da mendiga desdentada, que encostada no seu carro, lhe pede um
trocado para tomar um café, e lhe mostraria que a corrida do moleque que lhe
rouba a carteira tem a graça de uma prova das Olimpíadas.
Eu lhe ensinaria a olhar as favelas com os olhos de
uma criança inocente a qual pensa que as pessoas moram nos morros para ficar
mais perto de Deus.
Se eu tivesse a sensibilidade peculiar dos
cronistas, recolheria todas as dores e alegrias humanas e as recontaria, lhe
fazendo descobrir a todo instante a essência da vida e a grandeza dos mais
simples.
Seria capaz de lhe encantar, através do meu texto,
com o cachorro sarnento que não lhe deixa dormir e lhe faria escutar a sinfonia
da torneira da pia que não para de pingar.
Eu faria de cada folha um palco, onde estreariam
todos os dias, como protagonistas, os atores marginais da vida. Poderia lhe
seduzir, ao transformar em estrela, a menina pobre do subúrbio que, resgatada
do seu anonimato, brilharia por um instante em uma crônica minha.
Se eu tivesse a alma dos cronistas, sentaria ao
computador e só de olhar o teclado escreveria uma crônica que lhe despertaria
para o sorriso do menor de rua, que na sua pureza lembra o Menino Jesus.
Se eu fosse cronista, lhe emprestaria meus olhos
para que você enxergasse a vida com a magia que os cronistas veem, e eu
tornaria eternas até mesmo as coisas efêmeras.
Eu faria tudo isso, se eu fosse cronista e soubesse
tirar dos segundos um século, um mundo e com ele lhe deslumbrar.
Ah! Se eu fosse cronista...
Iara Oliveira
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